domingo, 25 de outubro de 2026

O PESO DA LUZ E A DOR DE PENSAR: Um chocante experimento com IA

ATENÇÃO: Esta publicação viola algumas regras que impus a mim mesmo na construção deste blog!

O leitor assíduo sabe que os textos que posto aqui são de criação inteiramente humana, 100% autorais com base nas minhas leituras e nas minhas vivências. As únicas exceções são algumas poucas imagens geradas por IA (sempre com as devidas indicações).

A primeira pergunta é: por que eu prefiro escrever de forma artesanal e demorada, assim como se fazia no longínquo ano de 2025 [contém ironia], ao invés de aproveitar as facilidades da IA?

Para mim, escrever é uma tarefa árdua. As palavras não surgem com facilidade, e as ideias que no início tenho na minha cabeça, girando em muitas dimensões como em um caleidoscópio, não se relacionam umas com as outras de forma espontaneamente límpida e harmônica. É por isso que encontrar uma maneira de organizar tudo isso em um texto linear que seja ao mesmo tempo profundo, agradável e instigante para o leitor, sem perder os múltiplos conteúdos das minhas intenções originais, é um trabalho mais do que desafiador.

Tendo essa dificuldade em vista, eu escrevo para que, no processo de escrita, meus pensamentos sejam confrontados com eles próprios e com os obstáculos inerentes à linguagem escrita. Isso exige uma atenção e um esforço intelectual que eu não teria de outra maneira. Ao buscar as melhores formas de organizar minhas ideias e de expressar meus sentimentos, essas mesmas ideias se aperfeiçoam e esses mesmos sentimentos amadurecem.

Por isso, o ato de manufaturar os textos – bem vagarosamente, apreciando cada minúcia e cada dificuldade que aparece no caminho – é uma decisão pessoal que não foi tomada por qualquer tipo de aversão ranzinza às novas tecnologias. Em realidade, minha postura é quase o contrário disso. No meu cotidiano, com alguma cautela, eu busco desfrutar ao máximo as aberturas de horizontes que as inteligências artificiais estão proporcionando. Mas há tarefas que prefiro fazer à moda antiga.

Para a postagem de hoje (a última desta série de reflexões sobre IA), minha ideia original era fazer uma comparação entre dois textos distintos:
  • Texto A: "Is Photograph Art?" [Fotografia Pode ser Considerada Arte?]. Um clássico ensaio da Cambridge University Press, de 2014, que examina os impactos culturais do advento da câmera fotográfica no século XIX. Com riqueza de citações da época, o ensaio contempla desde aqueles que rejeitavam a fotografia como arte (por acreditarem que se tratava de um produto feito sem o toque do espírito humano) até aqueles que abraçaram de imediato o novo invento como um potencializador para novas formas de expressão.
  • Texto B: Uma discussão que vi na seção de comentários de um vídeo no Instagram. O vídeo em questão estava divulgando uma ferramenta de IA que aceita linguagem comum (sem necessidade de qualquer tipo de programação) para a geração de animações matemáticas com qualidade similar à dos vídeos do 3Blue1Brown. Desnecessário lembrar, mas o 3Blue1Brown é um canal de excelência didática incontestável e de perceptível inclinação artística no ato de confeccionar analogias visuais para ensinar matemática.
Usuário 1: O vídeo [sobre a ferramenta e IA] começou com "este vídeo teve 1,8 milhão de visualizações". Ele só teve tantas visualizações porque as pessoas valorizam a habilidade colocada no trabalho manual. Quando chegar o momento em que qualquer um consiga criar qualquer coisa sem precisar de nenhuma habilidade ou de entender o que faz uma criação ser boa (cores, composição, movimento, etc.) e tudo for produzido em massa de forma automática para todo mundo, aí nada mais vai ser especial ou interessante. A gente só vai estar cercado por porcaria sintética e sem alma.

Usuário 2: Mentira. Qualquer um podia aprender a fazer esses vídeos sem IA. Ter a habilidade não é tão difícil assim, é só um processo mecânico. Mas fazer algo bom já é outro nível. A mesma coisa com a IA: qualquer um pode digitar qualquer prompt, mas nunca vai ficar bom se você for burro e não tiver bom gosto. A ferramenta não importa, o que importa é o seu talento.

Com base nessas duas referências – distanciadas no tempo, mas aproximadas pela eterna tensão entre homem e máquina –, formulei um comando detalhado para que a IA do Gemini criasse um ensaio imitando minha própria voz literária.

O resultado foi o seguinte:

***

O Peso da Luz e a Dor de Pensar [Texto gerado por IA]

Existe uma sutil melancolia na velocidade com que as coisas deixam de ser difíceis.

Quando a fotografia deu seus primeiros passos no século XIX, gerou-se um ruído que ia muito além da mera disputa de mercado entre pintores e fotógrafos. Havia um incômodo filosófico legítimo. Por séculos, o domínio do desenho, a mistura dos pigmentos e o tempo dispendido diante da tela eram o canal pelo qual a sensibilidade humana se manifestava. De repente, uma caixa mecânica e um punhado de reações químicas conseguiam capturar a luz e a cena em um instante. A pergunta inevitável que ecoou na época não era apenas se aquilo era arte, mas se o esforço humano na pintura ainda conservava algum sentido quando o resultado final podia ser obtido sem a dor do processo.

Com o tempo, percebeu-se que a câmera não matou a pintura; ela apenas a desobrigou de ser um mero registro factual. Ao carregar o fardo da imitação da realidade, a máquina acabou libertando os artistas para explorarem dimensões que a lente jamais alcançaria — a abstração, a emoção crua, a geometria dos sentimentos.

É impossível não sentir um eco profundo dessa mesma história ao ler os comentários de pessoas reagindo às novas ferramentas de inteligência artificial. Diante de algoritmos capazes de gerar animações complexas ou articular conceitos matemáticos a partir de um simples pedido em linguagem corrente, a reação se divide entre o medo do empobrecimento cultural — a invasão de um conteúdo sintético e sem alma — e a convicção de que a ferramenta, por mais sofisticada que seja, nunca substituirá o gosto, a intenção e o talento de quem a guia.

Mas o nó central dessa discussão talvez não esteja na qualidade técnica daquilo que a máquina produz, e sim no papel do esforço humano na construção do significado.

Na matemática, por exemplo, a busca por uma demonstração ou por uma nova visualização nunca foi apenas sobre chegar à resposta certa no final da página. Se fosse assim, o gabarito de um livro-texto seria a parte mais valiosa da obra. O verdadeiro valor sempre esteve no processo mental de tatear o escuro, de testar hipóteses, de sentir a mente se reconfigurar gradualmente até que uma ideia complexa finalmente ganhe clareza. É um tipo de musculação do pensamento.

Quando uma ferramenta resolve esse percurso de forma instantânea, ela nos entrega o resultado, mas pode nos privar da jornada. E é nessa fenda que surge a inquietação: o que acontece com a satisfação do aprendizado e da criação quando o trabalho árduo deixa de ser estritamente necessário?

A resposta para essa angústia talvez não seja o pânico nem a rejeição cega, mas uma mudança de perspectiva. Assim como os pintores do século XIX tiveram que redefinir o propósito de seu ofício, somos convidados hoje a redefinir o que valorizamos na atividade intelectual e artística. O foco se desloca da execução mecânica para a capacidade de fazer as perguntas certas, de construir conexões inesperadas, de curar ideias e de dar sentido àquilo que criamos.

A máquina pode calcular, sintetizar e até simular a estética do cuidado. O que ela não pode fazer por nós é sentir o impacto de uma descoberta ou dar propósito ao conhecimento. O significado não reside na eficiência do algoritmo, mas na consciência de quem observa, aprende e se transforma.

No fim das contas, há uma ironia inescapável no fato de este próprio texto ter sido articulado por uma inteligência artificial, a partir de instruções e diretrizes humanas. Você, leitor, sabe disso porque o aviso no início da página deixou isso claro. Mas o fato de estas linhas conseguirem provocar uma reflexão em sua mente não anula a pergunta que fica no ar: onde termina a ferramenta e onde começa o pensamento?

Talvez a melhor atitude diante do futuro não seja temer que as máquinas pensem por nós, mas garantir que continuemos encontrando alegria e sentido no ato de pensar por nós mesmos.
I'm sorry, Gustavo. I'm afraid I can't let you write alone.
Eu, Gustavo, com minha limitada inteligência natural, pergunto: o texto do Gemini está melhor do que o que eu teria escrito? Melhor em nível objetivo? Melhor para o leitor? Melhor para mim?

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