Nos últimos dias, tenho lido, discutido e refletido muito a respeito do impacto da IA na produção da matemática e na educação em geral. Uma mistura inconstante de medo e esperança fervilha nos corações de todos aqueles que dedicam as próprias vidas a trabalhos intelectuais. Repensar nossos valores e objetivos se tornou urgente, um desafio incontornável. Pesquisadores e professores de todos os níveis já sentem a necessidade de meditar em detalhes sobre o que significa educar em uma era em que informações e explicações podem ser geradas inteiramente por inteligências não-humanas. Adaptações em nossas culturas acadêmicas são inevitáveis.
Com nossas sensibilidades e receios ainda expostos em carne-viva, talvez seja demasiado cedo para termos convicções moderadas antes que a revolução se assente. Olhar para um lago quando as águas ainda estão revoltosas nos impede de ver sua profundidade. Similarmente, ponderar em meio ao turbilhão borra a visão e confunde o censo crítico. Por essa razão, não espero que o presente texto seja particularmente instrutivo. Espero, isso sim, que crie uma ponte humana que nos conecte (e uma ponte inteiramente humana, pois nenhuma linha deste texto foi escrita com assistência de IA). Espero que as funções de expressividade, de geração de ideias e de maturação de sentimentos inerentes à linguagem se sobreponham à mera comunicação; e que o relato honesto e não adulterado de minhas aflições toque as suas aflições, para que, como em uma reação química, elas se convertam em um novo composto que nos una e que reanime nossa humanidade.
Já está se tornando cansativo repetir isto, mas vamos contextualizar as coisas uma vez mais: inteligências artificiais já estão solucionando problemas matemáticos que excedem a capacidade humana. Estão solucionando não apenas operações complexas que exigem longos cálculos guiados por regras bem definidas: estão, também, encontrando respostas para questões que, para serem deslindadas, exigem visão, insight e raciocínios elaborados. Adicionalmente, as IAs estão dando explicações detalhadas, com esclarecimentos que satisfazem a curiosidade de qualquer ser humano, por mais crítico que seja. Demonstrações que matemáticos old school qualificariam como "belas e elegantes" são apresentadas com um simples apertar de botão. Conexões destas demonstrações com áreas da ciência que um matemático humano nem suspeitaria que existem são estabelecidas pela IA com uma fluência que sobrepassa a de qualquer cientista de carne e osso.
Neste cenário que parece de ficção científica, resta pouco espaço para proferir suspiros de autoconsolação como "a IA nunca vai conseguir substituir esta e esta atividade humana" ou "reconheço que a IA resolve problemas difíceis, mas ela não entende os caminhos que levaram à resolução".
Não. Não vamos nos esconder atrás de mentiras ou meias-verdades. Em um sentido nada desprezível, a IA entende melhor do que nós mesmos.
Assim como o enxadrista que viu a máquina vencer Kasparov, o matemático moderno vai ver a IA se adiantar a Terence Tao. Mais do que isso, vai ver a IA explicar com precisão e desenvoltura os caminhos que levam a cada uma de suas descobertas, bem como os novos caminhos que se abrem com base nelas.
De imediato, impõe-se a necessidade de reestruturar nossas culturas acadêmicas e repensar nossos planos pedagógicos de longo prazo.
Entre cientistas e educadores, uma das posturas mais nobres e sensatas que encontrei a respeito deste cenário rapidamente emergente é a seguinte: reconhecer que a finalidade essencial da matemática, bem como um dos objetivos mais importantes de qualquer ciência de base, mais talvez do que a geração de conhecimento, é a nutrição da sabedoria humana. Por "nutrição da sabedoria humana" não me refiro à preservação de um corpo de conhecimentos para a toda a humanidade (como uma enciclopédia gigante e altamente sofisticada), e sim o esclarecimento intelectual para cada pessoa tomada em sua exclusia individualidade. Pois uma coisa é dizer "a humanidade já resolveu o Paradoxo de Zenão"; outra, muito diferente, é dizer "o José entendeu o significado do Paradoxo de Zenão, compreendeu por que esse suposto paradoxo é filosoficamente interessante e conseguiu absorver as ideias que o esclarecem por completo".
Com esta postura, nosso objetivo enquanto educadores começa a ganhar contornos mais bem-definidos: com muita cautela e sensibilidade, vamos ter que retirar a exclusividade que nossos holofotes didáticos dedicam a técnicas complexas e a resultados objetivos em sua frieza de laboratório para começar a mirar esses holofotes, de maneira muito hábil e humanizada, às construções históricas e aos significados contextuais de cada uma das descobertas mais relevantes de cada campo do saber. Teremos que nos preocupar mais em instruir o aprendiz a apreciar as sutilezas daquilo que ele estuda, com interpretação e censo crítico, do que propriamente capacitá-lo a reproduzir as técnicas relacionadas a esse estudo.
Acredito que o matemático de futuro, para se sentir realizado e motivado, precisará estudar mais a história da matemática e a filosofia da matemática do que as próprias técnicas que a matemática contém. Idealmente, essas três áreas (técnica, história e filosofia) serão quase que indistinguíveis umas das outras nos nossos estudos do dia a dia. Quero dizer com isso que estudar matemática, para meus filhos e netos (talvez para mim mesmo daqui a 10 anos, se é que secretamente já não é assim hoje), será praticamente o mesmo que averiguar os caminhos mentais e culturais que levaram à consolidação daquela matemática que está posta.
Neste cenário, um estudante de matemática em nível universitário não será mais alguém que meramente resolve problemas, e sim alguém que se especializa na arte de apreciar, interpretar, contextualizar e gerenciar tudo relacionado a esses problemas: seu histórico, sua relevância, suas implicações, sua solução (por humanos ou por IA). Ele fará isso por dois motivos: 1) pelo prazer de sentir sua mentalidade se expandindo e seu senso crítico se afiando; 2) para ser capaz de instruir outras pessoas (que não seguiram vida matemática) a pensar matematicamente, com clareza e precisão. Assim como um padre ou monge que dedica toda sua vida a pensar sobre questões morais e espirituais para poder levar algumas mensagens úteis a seus fiéis, que possuem vidas mais agitadas e, consequentemente, menos tempo para a meditação profunda, também o matemático deve dedicar parte de sua força de trabalho para levar alguns ensinamentos de ceticismo, interpretação, raciocínio e rigor lógico para todos aqueles que possam disso se beneficiar.
Assim sendo, infelizmente (ou felizmente), o estudante do futuro não vai ter desafios tão claros como temos hoje, com problemas famosos em aberto e ramos de pesquisa demandando respostas objetivas. A atividade intelectual carecerá cada vez mais de um propósito nítido que se sobreponha a todas as dificuldades que aparecem pelo caminho, mas quiçá se torne mais prazerosa e dotada de humanidade. Quiçá mais acessível e menos dependente de altas-habilidades.
A pesquisa em matemática pura talvez se torne menos empolgante, talvez quase inexistente, mas o estudo da matemática vai permanecer existindo como um exercício intelectual essencial da existência humana. Assim como a criação de maquinários mecânicos para carregar caixas e tijolos não fez desaparecer a necessidade essencial de exercitarmos nossos músculos, antes reforçou a exigência de que pratiquemos esportes para evitar doenças e obesidade, também o alívio da necessidade de dedicarmos largos recursos humanos e econômicos à pesquisa de base não vai nos tornar ociosos intelectuais. Vai, isso sim, tornar nossa atividade menos penosa e mais orientada às necessidades reais de nossos semelhantes.
Se a pesquisa em matemática por força humana vai se tornar quase que obsoleta, a educação se fará ainda mais importante do que é hoje (se por nenhuma razão mais nobre, ao menos pelo fato de que o funcionamento de IAs demanda matemática extremamente sofisticada que exige décadas de treinamento). Cada vez mais humanizada, preocupada com as nuances do entendimento de cada indivíduo assim como um personal trainer se preocupa com cada fibra do atleta, a educação precisará ser uma troca de experiências guiada pela curiosidade, pela disciplina e pelo desejo de crescimento pessoal.
A matemática pura, enquanto pesquisa da matemática pela matemática, assim com o parnasianismo nas artes ("a arte pela arte", sem qualquer outra preocupação), vai entrar em um período outonal. Isso tem um sabor estranho e um tanto amargo para alguém, como eu, que dedica a vida laboral justamente à matemática pura. Mas tenho que reconhecer que isso não é necessariamente uma coisa ruim; na verdade, é um fenômeno muito natural quando pensamos em escala histórica: lembro-me de ter lido na autobiografia de Werner Heisenberg que ele se considera sortudo de ter perseguido carreira na Física, e não na Música (que era seu outro grande interesse durante a adolescência), pois naquela época, sem que ele soubesse, a Física estava experimentando uma revitalização explosiva com imensa fertilidade para jovens empolgados como ele, enquanto que a Música vivenciava um período de exaustão que parecia não oferecer mais espaço para novidades (algo que mudou algumas décadas depois, graças ao surgimento de novas tecnologias musicais, como a guitarra elétrica e o sintetizador – ironicamente, possibilitados por avanços na Física).
Ademais, já era hora. Os conhecimentos nas ciências exatas, nos transcorrer dos últmos séculos, vêm se tornando tão complexos, tão espalhados em hiper-especialidades impenetráveis ("sei tudo de Variedades Diferenciáveis mas não conheço nada de Teoria da Relatividade") que fazem com que a quantidade de informação necessária para o domínio de qualquer teoria relevante vá se encaminhando a um ponto crítico insustentável (uma singularidade em tempo finito?). Nenhuma mente humana conseguiria administrar parte significativa desse corpus titânico de conhecimento sem auxílio de IA, de modo que a longo prazo perderíamos tanto o olhar cirúrgico do especialista quanto a visão holística do filósofo. Nesse labirinto que clama por organização, a matemática deveria ser um mapa de clareza, não um emaranhado a mais de blocos e paredes e ciclópes e armadilhas e miragens.
Embora a matemática pura talvez entre em declínio com relação ao número de pessoas perseguindo carreiras universitárias sobre Geometria Algébrica ou Teoria dos Números Transcendentes, os impactos práticos da matemática nas mais diversas áreas (medicina, neurociência, engenharia, infra-estrutura, robótica, computação, etc., etc., etc.) será gigantescamente ascendente. Além dos mais do que bem-vindos impactos práticos que isso vai acarretar nas tecnologias que fazem com que possamos viver mais e melhor (próteses biomecânicas, implantes cerebrais, cura de doenças, gerenciamento econômico em larga escala, etc., etc., etc.), no meu pequeno ambiente cultural chamado Academia de Matemática teremos um estímulo forte para sair de nossas zonas de conforto e buscar conhecimentos para além das áreas a que inicialmente nos propusemos a investigar.
Este é um aspecto que acende meu otimismo.
Na minha experiência, fico chocado com o fato de que os matemáticos de hoje ignoram a história de seus objetos de estudo e raramente se preocupam com o significado físico, científico ou filosófico daquilo que estudam. Para mim, é assombroso que o matemático de hoje não se reconheça – não se sinta em seu íntimo – como um cientista ou um investigador de fenômenos e propriedades do mundo real. É como se a matemática tivesse deixado de ser o campo da experimentação intelectual acerca da realidade para se converter em uma competição esportiva cuja pontuação é medida unicamente pela quantidade de artigos publicados ou pela complexidade das técnicas desenvolvidas. Se essa mentalidade persistir em nossas cadeiras universitárias, teremos poucas esperanças de manter vivo o espírito cético, crítico, curioso e indagador que deve animar as ciências exatas (e não só elas!), pois não há como competir contra inteligências artificiais em assuntos puramente técnicos; seria como pedir para que Usain Bolt vencesse um carro esportivo em uma maratona manifestamente desleal.
Por outro lado, é difícil não pensar que, se o trabalho na matemática não for mensurado pela produção de resultados, então a matemática pura corre o risco de se tornar nada mais do que um puzzle complicado ou um passatempo sem grande importância. Desnecessário lembrar que universidades são fomentadas com dinheiro público, não sendo muito realista esperar que qualquer governo direcione verbas para a prática de puzzles (ou talvez seja, sim, realista e necessário: hoje temos a felicidade de viver em épocas prósperas o suficiente para que verbas sejam destinadas ao estudo de temas que não são prioridades para a sobrevivência ou sequer para a geração de tecnologia, como Música, História, Filosofia e Literatura. Não me entenda errado: eu amo esses temas e valorizo imensamente quem os mantém vivos, mas não há como negar que somos privilegiados por vivermos em tempos em que alguém pode se dar ao luxo de receber bons salários para publicar artigos sobre Semiótica ou Filosofia das Artes Cênicas, em vez de ter que trabalhar na lavoura ou lavar roupas sujas. Concretamente, creio que isso é um positivo sinal de progresso. E espero que novas tecnologias, impulsionadas por IA, gerem prosperidade econômica suficiente para que possamos nos dar ao luxo de fomentar cada vez mais atividades que não geram uma contraprestação monetária imediata – mas que a longo prazo sempre se revelam benéficas para todos).
Na academia, a primeira mudança que devemos tomar é aprender a dar crédito para trabalhos que não sejam propriamente técnicos. Para roubar a acurada frase de Grant Sanderson, "se a matemática é mais do que definições e demonstrações, precisamos aprender a celebrar melhor todo o resto": valorizar textos de explicação e de interpretação tanto quanto valorizamos resultados brutos; aprender a criar narrativas que contextualizem e motivem a matemática; atribuir mérito acadêmico a práticas que, se não fornecem um conhecimento novo, ao menos aproximam as pessoas de algum tipo de sabedoria e revelam caminhos mais acessíveis para conhecimentos antigos.
A verdade é: o futuro da matemática está nas nossas mãos, e suas fronteiras estão mais flexíveis do que nunca. Espero que essas fronteiras passem a englobar cada vez mais humanidade: entendimento humano, relações humanas, experiências humanas, amizades humanas.
Tomemos meu caso como exemplo (que é o caso de muitos pesquisadores ao redor do mundo, nas mãos dos quais se encontra o futuro da cultura matemática): estou em um país muito distante da terra em que nasci – terra esta que adoro em todas suas cores, odores e sabores e que abriga pessoas que amo mais do que a mim mesmo –, longe da minha família e dos amigos com quem cresci e com quem me importo muito mais do que com teoremas e equações. Pergunto: estou fazendo isso para publicar artigos sobre um tema hiper-especializado que interessa, quando muito, apenas a um punhado minúsculo de gente no mundo inteiro? Estou fazendo isso para resolver algum problema abstrato que uma IA poderia resolver em menos de um dia e que uma IA certamente vai revisar para conferir a precisão dos meus argumentos? Dói-me reconhecer, mas a resposta, hoje, é: sim. No entanto, justamente por que essa resposta deveras me dói, tenho que ir mais a fundo e expandí-la para além da mera aceitação de "é assim que as coisas funcionam". Em meu caso, estou fazendo tudo isso para aperfeiçoar minhas habilidades e angariar experiências que espero ser úteis para meus alunos, tornando-me uma pessoa com mais consciência e com mais conteúdo humano a oferecer àqueles com quem compartilho minhas horas. E também, é claro – afinal eu não sou nenhum santo altruísta –, simplesmente porque eu gosto de fazer o que faço: dá-me prazer sentir minha percepção racional se aguçando, minha mentalidade se expandindo e minha energial mental se renovando em alta octanagem, bem como me agrada conviver com pessoas gentis, curiosas e muito mais inteligentes do que eu. E também, é claro – afinal eu não sou nenhum demônio egoísta –, quero contribuir para que outras pessoas tenham experiências tão vivazes quanto as minhas.
Esta, enfim, é a condição humana: não há santos, não há demônios. Big wheel keep on turning. Seguimos nossas vidas e buscamos o melhor para os nossos descendentes. Não há por que pedir mais do que isso. Já temos uma riqueza inesgotável.
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